Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 16/06/2026

Marco Abundância 16/06/2026

A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.

“Quarto poder” ou “voz do dono”?

«O quarto poder é uma expressão clássica que se refere ao papel de influência e fiscalização desempenhado pelos meios de comunicação social e pelo jornalismo na sociedade, atuando como um contrapeso aos três poderes tradicionais do Estado Democrático: Executivo, Legislativo e Judiciário», segundo a a Wikipédia.

É este poder da comunicação social que incomoda tanto os outros poderes, nomeadamente o Executivo e os seus apoiantes, por denunciar o que não fazem ou fazem mal e deviam fazer bem, e evidenciar o quanto a sua atividade está a ser avaliada negativamente pelas pessoas.

Por isso, os outros poderes têm dificuldade em aceitar este quarto poder e se referem aos seus agentes como se adversários fossem ou estivessem ao seu serviço. Só valorizam o papel da comunicação social quando ela, em vez de desempenhar a sua função de contrapeso, se acomoda e se limita a informar, ou até propagandear, acriticamente a atividade dos outros poderes.

Ora, não é para isto que serve a comunicação social. Para isso existem os assessores e gabinetes de imprensa, as agências de comunicação, publicidade e propaganda e tantas outras figuras, contratadas para serem a voz do dono, de quem lhes paga, não só para publicitarem o que os poderes fazem e querem que seja publicitado, como para porem em causa a comunicação social, sempre que esta, no exercício da sua função, os critica ou não apoia como gostariam.

Ou seja, o quarto poder é frequentemente apoiado e elogiado pelas oposições, às políticas e medidas que criticam dos outros poderes, e mal visto e criticado pelos poderes instalados e seus apoiantes, que não apreciam ser criticados e de ver as suas políticas e medidas erradas serem expostas pela comunicação social.

Basta ler ou ouvir comentários nas redes sociais, para se perceber isso. Os que criticavam os meios de comunicação social, por não criticarem ou criticarem pouco o governo anterior, queixam-se agora do governo estar a ser demasiado criticado e as suas políticas e medidas a serem desvalorizadas.

Outra questão, bem grave, que hoje se coloca é o monopólio e a concentração dos órgãos de comunicação social nas mãos de uns poucos, que detêm o poder económico e querem condicionar a sua ação, daí existir um debate sociológico e filosófico sobre até que ponto essa influência pode manipular a democracia.

É uma questão muito mais profunda e que, agora com as redes sociais e o seu domínio por muito poucos, se vai fazendo sentir, cada vez mais, em inúmeras situações, incluindo em eleições, como tem sido denunciado em vários países.

Veja-se o que Trump tem feito. Obrigou ao encerramento, ou alteração da linha editorial, de órgãos de comunicação social e de programas, que desmascaravam políticas e medidas da sua Administração, bem como a forma como usa o poder em proveito próprio e dos seus. E não satisfeito com isso, e apesar de contar com o apoio de Elon Musk, criou a sua própria rede social.

A capacidade dos órgãos de comunicação social de moldar a opinião pública e fiscalizar os políticos, bem como de dar (ou retirar) credibilidade a temas e pessoas é tão forte que funciona como um quarto poder dentro da democracia. Só que agora, o monopólio e a concentração dos órgãos de comunicação social nas mãos de uns poucos, pode controlar o quarto poder, domesticando-o aos grandes interesses do poder económico.

Até que ponto o quarto poder continua a atuar como um “cão de guarda” da democracia, investigando e expondo abusos ou irregularidades cometidas pelos outros poderes, ou se está a transformar na “voz do dono”, numa grande central de propaganda dos grandes grupos económicos é a questão mais pertinente que se coloca neste debate, nos tempos que correm.

Da capacidade do poder político reconhecer a importância do papel da comunicação social enquanto contrapeso dos outros poderes, incluindo o económico, dependerá muito o futuro da democracia. Uma comunicação social domesticada só interessa aos que detêm o poder e enquanto o detêm, dificultando as alternativas ou alternâncias.

Até para a semana!                                                                                 LG, 16/06/2026

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