Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 15/09/2026
Marco Abundância 15/09/2026
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
Os padrões ético-políticos luisianos
Luís Montenegro quando tomou posse, pela primeira vez, como primeiro-ministro tinha uma empresa prestadora de serviços, que manteve durante algum tempo, já em pleno exercício de funções no governo.
A situação de conflito de interesses manteve-se até ter sido tornada pública e depois de alguma polémica e de algumas peripécias, que mostraram logo como são flexíveis e bastante largos os padrões ético-políticos quando a si ou aos seus se aplicam.
Luís Montenegro fez tudo, utilizando todos os os álibis e resistindo a todas as pressões, para atrasar os esclarecimentos sobre a sua situação. E, mesmo assim e depois de todas as artimanhas usadas, não esclareceu tudo, permanecendo muitas dúvidas sobre sobre a situação, embora tenha ficado claro o conflito de interesses.
Não satisfeito com a desvalorização do evidente conflito de interesses que manteve, entre as suas atividades empresariais e as funções de primeiro-ministro, também fez tudo para desvalorizar irregularidades e ilegalidades, justificando-as, nalguns casos, com desconhecimento de ter de cumprir normativos regulamentares e legais.
Isto depois de afirmar que a opção de alguns clientes pela sua empresa se dever apenas à sua competência profissional. Então porque não usou essa sua competência para tratar, em tempo oportuno, dos seus assuntos pessoais e evitar tamanha trapalhada, que é mais do que isso, porque as avenças lhe rendiam bons proveitos?
É claro que para quem faz do derrube do regime democrático o eixo principal da sua intervenção político-partidária, usando a corrupção e o conflito de interesses, quando praticados pelos outros, como exemplo principal de como o regime está podre, esta situação veio mesmo a calhar, depois de ter obtido uma boa votação eleitoral.
E, por isso, não foi de estranhar que André Ventura e o Chega cavalgassem a onda da denúncia das irregularidades e ilegalidades e falta de ética do primeiro-ministro e a exigência de esclarecimentos e consequências para a sua reprovável conduta, que culminou na apresentação de uma moção de censura ao governo, com as consequências conhecidas.
Luís Montenegro, evidenciando mais uma vez os seus padrões ético-políticos, tratou logo de considerar que os eleitores o tinham absolvido, ao darem mais umas décimas de percentagem de votos à AD do que ao PS e ao Chega, como se as questões éticas e legais fossem sanadas pelo tribunal popular.
E, assim, André Ventura e o Chega acalmaram a onda de contestação política às políticas do governo, funcionando como seguro de vida de Luís Montenegro.
Agora, quando a onda de contestação ao governo crescia, face ao ao incumprimento de promessas e compromissos, ao agravamento das condições na Saúde, à enorme trapalhada na avaliação informática dos exames, à falta de habitação e aos elevados custos da que existe, ao agravamento do custo de vida, resultante do aumento dos combustíveis, e às reivindicações dos trabalhadores e outros setores, lá apareceram André Ventura e o Chega a voltar a segurar Luís Montenegro e o seu governo.
Como parece evidente para a maioria das pessoas, com mais esta moção de censura ao governo, com chumbo anunciado logo à nascença, André Ventura e o Chega não fizeram mais do que acalmar a contestação ao governo e, em especial, a Luís Neves.
É claro que a conduta de Luís Neves, quer nalgumas decisões que tomou como diretor da Polícia Judiciária quer na sua vida familiar, necessitam de ser mais escrutinadas, e desse escrutínio devem ser retiradas as devidas consequências.
Como também é claro que Luís Neves, se tem pautado, neste processo, pelos padrões ético-políticos de Luís Montenegro, apenas dando explicações para as dúvidas quando entende e as que entende, quase sempre aumento-as em vez de esclarecer as que já existiam. Mas o mais grave, foi a apresentação do desconhecimento da lei e dos regulamentos como justificação da informalidade com que tomou algumas decisões. Se tal não se admite a um cidadão comum como se pode admitir a quem tem como missão investigar crimes e outras situações desrespeitadoras da lei?
Luís Neves, perante alegadas irregularidades e até ilegalidades e as trapalhadas das suas explicações, dificilmente terá condições para se manter como ministro por muito mais tempo e até lá criará mais problemas ao governo do que resolverá, por mais competente que o primeiro-ministro o considere.
Mas certamente que uma das razões por que se mantém no governo é a campanha contra ele movida por André Ventura e o Chega, que o transformaram em vítima e em, quase, única razão de crítica ao governo, fazendo passar para segundo plano as principais razões de queixa e crítica que as pessoas fazem das políticas do governo.
Até para a semana! LG, 14/09/2026

