Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 14/04/2026

Marco Abundância 14/04/2026

A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.

“Depois de casa roubada, trancas à porta”

Este provérbio popular refere-se à necessidade de serem preventivamente tomadas medidas de proteção ou segurança e não quando já é tarde para evitar os problemas. Tem a ver com a característica bem portuguesa de “deixa andar”, de agirmos depois dos problemas surgirem em vez de prevenirmos os riscos de que eles possam surgir.

É o que se passa com as preocupações manifestadas por autarcas e populações em relação ao estado de alguns centros históricos e zonas antigas de cidades e vilas.

Os centros históricos foram isso mesmo – o centro das povoações. Onde tudo começou e partir de onde as cidades e vilas foram crescendo para os arrabaldes e, depois, para zonas mais afastadas, tendo algumas delas criado novas centralidades.

A maior facilidade com que se constrói de novo e de acordo com necessidades e gostos mais modernos tem contribuído para, em muitos casos, serem privilegiadas as novas urbanizações em prejuízo da manutenção, conservação e reabilitação dos centros históricos e zonas antigas.

A instalação de novos equipamentos sociais, culturais, desportivos e, principalmente, das novas grandes superfícies comerciais tem sido decisiva para a criação de novas centralidades e para o encerramento progressivo do pequeno comércio e de outros serviços, que se deslocaram para aquelas novas centralidades.

As inúmeras dificuldades relacionadas com a transmissão da propriedade de prédios, a excessiva rigidez e burocracia no licenciamento de obras, bem como a maior dificuldade de execução destas, entre muitos outros fatores, tem contribuído para a degradação progressiva de imóveis nos centros históricos, exercendo sobre eles uma ação repulsiva, acentuando o seu despovoamento e desertificação.

Este processo não tem evoluído da mesma forma e com a mesma rapidez em todos eles, havendo bons exemplos de revitalização e revivificação de alguns deles. São esses bons exemplos que deviam ser seguidos, naturalmente com as devidas adaptações a cada uma das realidades, pelas autarquias que se vêm confrontadas com a degradação progressiva e rápida dos seus centros históricos, em vez de se limitarem ao passa culpas para o governo e os proprietários e continuarem a assistir à sua rápida degradação. Ou será que querem que o processo se torne irreversível?

Os centros históricos devem ser encarados pelos autarcas, e também pela população, designadamente os proprietários dos prédios neles localizados, como um desafio, que exige investimento, para que não se transforme num problema que só tem custos. As autarquias devem ter serviços próprios dedicados exclusivamente à gestão dos centros históricos, que devem assegurar um acompanhamento casa a casa.

Os centros históricos não devem ser vistos apenas como peças de museu, que devem ser preservadas para os turistas visitarem. Devem ser encarados como centros com vida, com comércio e serviços, artes e artesanato, mas também com moradores. Sem estes, fora dos horários daqueles, os centros históricos ficam desertos, facilitando as condições para o aumento da insegurança do que neles existe.

Ora, é precisamente a isto que assistimos em muitos deles. Não conseguiram delinear estratégias de fixação e atração da população, começando pela manutenção dos que neles sempre viveram. Nem avançaram com novas soluções, como, por exemplo, a da criação de habitações para pessoas com incapacidades, com acompanhamento de assistentes para os ajudarem das suas dificuldades.

O alojamento de imigrantes também podia ajudar à vivificação dos centros históricos,  desde que lhes fossem asseguradas as condições necessárias de habitabilidade, ao invés do seu amontoamento em casas degradadas e sem as condições mínimas, que os obriga a passarem grande parte do tempo na rua.

E assim, com o despovoamento, por um lado, e com o amontoamento de imigrantes, a maioria deles bem diferentes dos autóctones, por outro, criaram-se as condições de insegurança, ou da sua perceção, que agora querem combater com a instalação de câmaras de vigilância, como se os crimes apenas fossem praticados nessa zonas.

O combate aos problemas deve ser feito às suas causas e não apenas às suas consequências. Devem ser preventivamente tomadas medidas de proteção ou segurança e não apenas quando já é tarde para evitar os problemas ou atenuar as suas consequências. Caso contrário, “depois de casa roubada, trancas à porta”…

Até para a semana!

LG, 14/04/2026

 

 

 

 

 

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