Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 09/06/2026
Marco Abundância 09/06/2026
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
Nós e os outros, cada vez mais separados
Apesar de termos vivido uma revolução há pouco mais de meio século, ultrapassados que foram os excessos que acontecem em todas as revoluções, a democracia acabou por se impor, principalmente na sua dimensão política, e aprendemos todos a conviver na diversidade de opiniões e a saber respeitá-las.
Talvez esse processo se tenha desenvolvido mais facilmente porque o desejo de grande parte do povo português de que o regime político mudasse já durava há muito tempo, o que transformou o golpe de estado numa revolução, e esta acabou por ser muito mais pacífica do que acontece na maioria delas.
O facto da Revolução dos Cravos não ter provocado demasiados traumas na sociedade portuguesa, e a conquista das liberdades de expressão, imprensa e reunião, contribuíram para que a polarização gerada, principalmente, pelo PREC, se tenha progressivamente esbatido e instalado o gosto pelo convívio, pela troca de opiniões e pelo debate de ideias, valorizando-se até a sua diversidade.
Acreditámos que a diferença de opiniões e de ideias nos enriquecia, pelos mais amplos horizontes que nos abria, ajudando a ver mais longe e para os vários lados e não apenas para um só. Por isso mesmo, eram bastante criticados os que tinham mais dificuldades nesse debate e em ouvir e aceitar opiniões diversas das suas.
Entretanto, nos últimos anos, as coisas têm mudado, constatando-se que Portugal tem vindo a ficar mais polarizado, ao ponto de isso já se sentir nas conversas do dia a dia. Estudos recentes, revelam que são, cada vez mais, os portugueses que evitam falar de política, para não gerar conflitos, e um em cada quatro admite mesmo rejeitar quem pensa de forma diferente da sua.
Esta mudança na forma como as pessoas se relacionam e respeitam mutuamente e a crescente radicalização relativamente a temas que as divide não existe apenas no nosso País. É, cada vez mais, o novo normal em muitos países, nestes tempos.
Uma pesquisa publicada há já três anos, confirmava os temas que mais fraturam as sociedades: a oposição entre ricos e pobres, as pessoas que apoiam os vários partidos políticos, as diferentes classes sociais, as tensões entre imigrantes e pessoas nascidas no país, e a oposição entre os que têm ideias progressistas ou tradicionais.
A crescente polarização em torno de alguns desses temas compreende-se e é justificada pelo aumento das desigualdades, criadas pela globalização, de oportunidades, de poder e de riqueza, que geram ressentimentos e alimentam a radicalização de grupos contra a marginalização e a injustiça.
Mas, há outros fatores mais subjetivos, relacionados com os medos e as incertezas quanto ao futuro individual, coletivo e do mundo, que também contribuem para a radicalização das posições de pessoas e que as levam a procurar o apoio de grupos fechados, que partilham as mesmas ideias e que conferem identidade e segurança.
A Internet e as redes sociais, permitindo-nos aceder a todo o mundo, a toda a gente e a toda a informação, oferecem-nos a falsa sensação de sermos senhores do mundo, de tudo podermos e de termos a liberdade de fazer as escolhas que mais nos interessam.
E, assim, conduzidos pelos famosos algoritmos que alguns dominam, as pessoas são tentadas a interagir com outras que pensam igual ou partilham a mesma agenda, integrando grupos unidos pelas mesmas crenças e pelos mesmo argumentos, fechados em bolhas, recusando visões diferentes e radicalizando as suas posições. Quem fica preso nessas bolhas, isolado nas suas câmaras de eco e sem acesso a outras opiniões, vê as suas opiniões e crenças reforçadas, hostilizando pontos de vista diferentes.
A diferença passou a ser encarada como uma ameaça, porque passámos a ver os outros como inimigos, porque têm opiniões e ideias diferentes das nossas ou pertencem a grupos – partidos, clubes, associações -, diferentes dos nossos, o que impede o reconhecimento de convergências e compromete o diálogo construtivo.
Esta tendência está a por em causa o diálogo, a tolerância, a abertura à diferença e o reconhecimento da legitimidade dos outros e o respeito pelas instituições, em que assentam as bases da democracia. Não é por isso de admirar que a polarização social seja a terceira ameaça mais identificada pelas pessoas e tendendo a agravar-se.
Até para a semana! LG, 09/06/2026
