Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 29/09/2026

Marco Abundância 29/09/2026

A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.

Quando a força supera a diplomacia e a responsabilidade se deteriora

Em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, foi criada ONU – Organização das Nações Unidas, com o propósito de impedir novas guerras à escala mundial e garantir a paz e a segurança internacionais através do diálogo e da cooperação, e defender as boas relações entre os países, os direitos humanos e o progresso social.

A ONU substituiu a antiga Liga das Nações (ou Sociedade das Nações), a primeira organização intergovernamental do mundo, criada na sequência da Primeira Guerra Mundial, e que, apesar de ter como objetivo principal manter a paz e a segurança internacional, não conseguiu evitar a Segunda Guerra Mundial.

Será que também a ONU vai fracassar e não vai conseguir impedir uma terceira guerra mundial? Há já quem diga que estamos em guerra à escala mundial, tendo em conta as guerras e outros conflitos armados em várias regiões, designadamente as chamadas guerras híbridas, que misturam táticas militares tradicionais com ações não convencionais para atacar rivais sem iniciar conflitos armados diretos.

António Guterres, que se encontra em final de mandato como secretário-geral da ONU, alertou, na última Assembleia-Geral, que o mundo está cada vez mais dividido por guerras, rivalidades geopolíticas e desrespeito pelo direito internacional, o que confirma “o crescente abismo entre valores e realidade”, e que “As falhas do nosso mundo estão a aumentar”, pelo que, “No meio de crescentes divisões globais, o poder da lei deve prevalecer sobre a lei do poder”.

E afirmou ainda que “O nosso futuro comum será moldado pela capacidade da humanidade de governar o poder com sabedoria” e pela forma como responder a quatro grandes testes de poder: “guerra, desigualdade, mudanças climáticas e inteligência artificial”.

Quando a dimensão destes desafios mais precisa de uma Organização das Nações Unidas em que prevaleça a diplomacia, a responsabilidade e o bom-senso, assistimos a uma Assembleia-Geral que evidenciou que algumas das suprpotências fundadoras da ONU e as únicas com assento permanente no Conselho de Segurança e com direito de veto – Estados Unidos da América, Rússia, China, França e Reino Unido -,  evoluíram de forma unilateral, ignorando o direito internacional e usam o direito de veto, fazendo gato sapato da Organização que criaram e deviam respeitar e contribuir para alcançar os seus principais objetivos.

A que ainda é a principal potência mundial, na senda da visão imperialista que sempre teve, agravada agora com a liderança de Donald Trump, depois de procurar descredibilizar e limitar a capacidade financeira da ONU, muito está a fazer para que o mundo esteja cada vez mais caótico, as guerras sejam parte do dia-a-dia de cada vez mais regiões, e a ONU se mostre incapaz de resolver os principais problemas que enfrenta, sem que haja sinais de que essa inoperância possa ser alterada.

Apesar de tudo e embora possam não ter efeitos práticos no curto prazo, foram importantes alguns sinais observados na Assembleia Geral, que ontem terminou.

António Guterres que, na senda do que tem vindo a fazer, evidenciou os principais problemas com que o mundo se confronta e as suas causas e apontou caminhos para os enfrentar e tentar ultrapassar.

Lula da Silva que disse o óbvio, que alguns não veem ou não querem ver, apelando a que os problemas e as disputas entre países sejam resolvidos através da diplomacia e da responsabilidade, e que seja posto fim a guerras sem sentido e que tanto estão a prejudicar o mundo e a vida das pessoas.

O ministro das Relações Exteriores de Cuba que denunciou o embargo comercial de longa data e as sanções energéticas recentes e rejeitou a interferência estrangeira, e alertou contra o retorno à “lei da selva” nas relações internacionais, reiterando que Cuba permanece aberta ao diálogo em bases de igualdade soberana.

Resta esperar que a lucidez e o bom-senso iluminem os principais líderes políticos, de forma a terem presentes as razões fundadoras da ONU, que usem a diplomacia e a responsabilidade das funções que exercem para pôr fim às guerras e assegurem a paz e a segurança no mundo. Será pedir demais?

Até para a semana!

LG, 29/09/2026

 

 

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