Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 12/05/2026
Marco Abundância 12/05/2026
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
A trumpização da política
Vicente Garrido, um famoso criminologista e escritor espanhol, dedicou-se a analisar o comportamento do presidente dos Estados Unidos da América, e descreve Donald Trump como um psicopata, narcisista patológico, mentiroso compulsivo, egocêntrico e ignorante, que vive numa lógica de exaltação constante da própria imagem, se move entre a manipulação consciente e uma convicção quase absoluta na própria fantasia, tanto mente de forma deliberada como acredita genuinamente na imagem grandiosa que construiu de si mesmo.
E quando um líder chega assim ao centro do poder mundial a questão deixa de ser apenas psicológica e passa a ser política. O homem que fez da política o espetáculo continua a dominar o palco e só dele será afastado por alguém que demonstre ter uma força maior do que a dele.
Não há, segundo Vicente Garrido, paralelo na história mundial de um líder que reúna todas estas nefastas características. Mas existem por aí, por esse mundo fora, mas também a nível nacional e até local, alguns seguidores de Trump, que detém e se esforçam por desenvolver algumas dessas características.
Javier Milei que, antes de ser eleito Presidente da Argentina foi um comentador muito crítico dos seus antecessores nas televisões do seu país, ficou famoso por empunhar uma moto-serra na campanha eleitoral afirmando que ia cortar as despesas do Estado e a corrupção de forma radical. Apesar das medidas polémicas que tem tomado e do apoio, político e económico, do seu ídolo, Donald Trump, a quem não se cansa de prestar vassalagem, está a contar com um descontentamento crescente no seu país. Mas continua a considerar-se o maior e o único capaz de endireitar ao Argentina.
Luís Montenegro auto elogiou a sua participação num encontro na Alemanha, que contou com a presença de dois mil empresários alemães, que detêm 80% do PIB daquele país, onde foi “agraciado com o respeito espontâneo dessa plateia sempre que falou” do que está a fazer em Portugal, conforme enalteceu, e lamentou “que em Portugal não se tenha a noção exata do que os outros pensam de nós lá fora”. Bem gozou Ricardo Araújo Pereira com ele, dizendo que devia ter sido recebido no regresso com uma parada e que, em resultado da sua presença naquele encontro, vêm aí charters de contratos de investimentos de empresas alemãs.
Quem não reconhece em André Ventura muitas das características que Vicente Garrido apontou a Trump, de que é admirador e seguidor confesso? Não é ele narcisista, mentiroso compulsivo, egocêntrico e ignorante, tendo sido frequentemente apanhado a mentir e a falar do que não sabe? Não manipula consciententeeee não mente de forma deliberada?
Infelizmente, a trumpização da política – líderes políticos e partidários a imitarem, consciente ou inconscientemente, Donald Trump -, não se fica por estes exemplos.
Quem não é capaz de apontar, pelo menos algumas, daquelas características a alguns dos políticos que conhecemos, sejam eles líderes estrangeiros, nacionais ou locais?
A nível local até é mais fácil identificá-los, porque os conhecemos melhor porque estão mais próximos. Talvez a característica mais frequente seja a de serem mentirosos compulsivos, mentindo com a convicção de que estão a falar verdade. Alguns também não são capazes de esconder o seu narcisismo e como são egocêntricos e ignorantes.
E o problema maior com que nos confrontamos é o de haver tanta gente a aceitar essas características como normais em pessoas que elegemos para nos representar e governar. Isso revela-se quando é feita alguma crítica a algum político e surgem logo pessoas a dizerem que não são só eles os que devem ser criticados porque todos são iguais. Ora, é precisamente esta conclusão, a de que todos são iguais, que contribui para reduzir o espírito crítico das pessoas e, consequentemente, a capacidade de escrutinar quem nos governa ou representa.
Não, nem todos são iguais, nem todos são como Trump. Não devemos meter todos no mesmo saco e devemos estar atentos e separar o trigo do joio, que é como quem diz, distinguir quem se disponibiliza para servir dos que apenas se querem servir do que é comum e a todos interessa.
Até para a semana! LG, 12/05/2026
