Crónica de opinião – Lopes Guerreiro – 31/03/2024
Marco Abundância 31/03/2026
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
Insegurança, perceções, Justiça e realidade
A insegurança resulta da dúvida e do medo do desconhecido, designadamente se este estiver relacionado com culturas, ideologias, religiões, crenças diferentes da nossa, e principalmente se a diferença incluir também a raça, a etnia e a cor da pele.
A insegurança é facilmente fomentada e alimentada com as chamadas perceções, que, segundo a Infopédia, resultam da tomada de consciência de acontecimentos ou realidades exteriores através da análise e interpretação (por processos intuitivos, psíquicos e/ou intelectuais) de estímulos sensoriais ou da ideia ou juízo subjetivo que se tem sobre algo ou alguém, baseado na experiência própria ou próxima.
Por isso, as perceções são facilmente manipuladas através dos sentimentos mais básicos do ser humano. Nos últimos tempos, as perceções têm vindo a aumentar exponencialmente, difundidas de forma intencional e com objetivos bem claros, de que todos os males que nos afetam são provocados pelos ciganos e pelos imigrantes, de forma generalizada, como se todos os ciganos e imigrantes fossem criminosos.
Até pode acontecer que, atendendo às circunstâncias e às condições em que a grande maioria vive, haja taxas mais elevadas de crimes praticados por ciganos e imigrantes. Mas, mesmo dando de barato essa perceção, que os dados disponibilizados não confirmam, esses números em termos absolutos serão sempre relativamente baixos atendendo ao número de ciganos e imigrantes que vivem no nosso País.
A perceção da segurança em Beja tem vindo a ser abalada por alguns acontecimentos envolvendo esses grupos populacionais, alguns dos quais não têm tido a confirmação que parecia provada à partida.
No final de 2022, um caso contribuiu para a perceção de que a imigração estava a aumentar a insegurança, quando as autoridades que investigavam uma rede suspeita de escravizar imigrantes realizaram dezenas de buscas, envolvendo 400 inspetores da Polícia Judiciária e o juiz Carlos Alexandre, cujo processo constituiu 22 arguidos, entre pessoas e empresas, pronunciados por 55 crimes de tráfico de pessoas, um crime de associação criminosa e um de branqueamento de capitais.
A alguns arguidos foi mesmo determinada a prisão preventiva, durante largos meses. No decorrer do processo, alguns dos arguidos nem sequer chegaram a ser acusados de qualquer crime e, quase, todos os restantes foram absolvidos pelo Tribunal de Beja, por falta de provas. Apenas três dos 22 arguidos daquele que começou como um megaprocesso de exploração de imigrantes no Alentejo, foram condenados a multas por detenção de armas proibidas.
Como podemos admitir que autoridades, que investigavam uma rede suspeita de escravizar imigrantes, mobilizem tantos meios, para fazer dezenas de buscas, na sequência das quais prendem pessoas e, mais de três anos depois, não consigam reunir as provas necessárias para que os suspeitos sejam condenados?
Não seria de esperar que quando as autoridades judiciais e policiais indiciam pessoas pela eventual prática de crimes e prendem algumas o fizessem apenas depois de terem reunido matéria probatória suficiente? Assim, a perceção que fica é a de que primeiro prendem para depois tentarem reunir eventuais provas de eventuais crimes.
Esta prática das autoridades judiciais e policiais não só não abona nada em seu favor como põe em causa o estado de direito. O que nos pode levar a interrogar sobre a quem servem estas “entradas de leão e saídas de cordeiros” do sistema judicial.
Nos últimos dias, um incêndio numa habitação depois de uma rixa entre famílias ciganas em Beja foram logo usados como a prova de que os ciganos estariam a aumentar a insegurança na Cidade. Quem assim procedeu não cuidou de verificar se é de fato a insegurança ou se é a perceção de insegurança que está a aumentar. E parece que a preocupação de apontar o dedo aos ciganos é maior do que combater a criminalidade, seja ela praticada por ciganos ou outros quaisquer.
É este o ambiente que vivemos, em que, mais do que resolvermos problemas ou procurarmos encontrar soluções para eles, parece estarmos mais interessados em apontar o dedo, julgar e condenar à partida minorias, sejam elas quais forem, como se fossem elas as causas de todos os males. É uma prática velha e gasta mas em que alguns insistem de ser fortes com os fracos e fracos com os fortes.
Até para a semana! LG, 31/03/2026

