Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 25/02/2025
Marco Abundância 25/02/2025
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
O que ganhou o Chega com o chumbo da moção de censura
O Chega apresentou uma moção de censura intitulada “Pelo fim de um Governo sem integridade, liderado por um primeiro-ministro sob suspeita grave”, argumentando que existe um “cenário de total e generalizada descredibilização do Governo e do primeiro-ministro” que deve resultar na demissão do executivo minoritário da AD.
A moção de censura, discutida na passada sexta-feira, foi chumbada, tendo obtido apenas os votos favoráveis do Chega e do deputado Miguel Arruda, que entretanto abandonou o partido, devido às suspeitas de roubos de malas.
Face a este resultado da votação e, principalmente, às posições de todos os outros partidos, que acusaram o Chega de apresentar a moção de censura para tentar desviar as atenções das suspeitas da prática de crimes por vários dirigentes e deputados do partido, que vão desde o roubo de malas, a abusos sexuais de menores e a agressões e ameaças de morte, alguns consideraram que foi perda de tempo e que o Chega só perdeu com a apresentação da moção de censura, porque saiu mais descredibilizado.
Não creio que tenha sido exactamente isso o que aconteceu. O Chega sabia que a sua moção de censura iria ser chumbada. Até porque se disso tivesse dúvidas não a teria apresentado, porque não tendo conseguido entrar no governo da AD, como pretendeu, que governo pode existir no actual quadro que tenha políticas mais próximas das que o Chega defende que o de Luís Montenegro?
A luta entre eles não é, essencialmente, de políticas, é de poderes e de lugares. Basta ver o título da moção de censura que apresentou – “Pelo fim de um Governo sem integridade, liderado por um primeiro-ministro sob suspeita grave”. Nem uma crítica às políticas do governo. Porque nestas, no essencial, convergem. Não havendo divergências de fundo sobre as políticas do governo, André Ventura usou e usa os argumentos da falta de integridade, das suspeitas e da corrupção, que é a “sua praia”.
André Ventura, mesmo sabendo que a moção de censura tinha chumbo garantido e que todos os outros partidos o iriam acusar de pretender desviar as atenções das suspeitas relativas as alguns dirigentes e deputados do Chega, não hesitou em avançar com a sua apresentação, porque, com a sua discussão, colocou-se no papel de líder da oposição e esforçou-se por mostrar que todos os partidos têm “telhados de vidro” – casos e casinhos de corrupção e falta de idoneidade, exigindo aos outros o que eles próprios não fazem -, mesmo sendo o Chega acusado do mesmo, porque o que mais lhe interessa é mostrar que o regime actual está podre e deve ser alterado.
Como tantas vezes tem repetido e não perde oportunidade de insistir, André Ventura faz tudo para mostrar que “a III República está definitivamente podre”. Mais claro não podia ser. André Ventura e os que o seguem no Chega o que pretendem, antes de mais, é que seja eliminado tudo o que resta das conquistas de Abril. Não para voltar à II República, de Salazar e Marcelo Caetano, de que são saudosistas, mas para instalar um novo regime mais sofisticado, embora assente nos mesmos princípios daquele.
É esse o objectivo maior de André Ventura e dos seus ideólogos dos MIRN e ELP, que o acompanham nessa cruzada. E tem feito o seu caminho, para surpresa de muitos, que deram como garantidas as conquistas de Abril e que ignoraram os defensores do antigo regime, como se tivessem desaparecido por obra e graça do 25 de Abril, quando se limitaram a passar despercebidos e muitos deles chegaram mesmo a declarar a sua oportunista “conversão” ao novo regime.
Finalmente, conseguiram criar condições para “saírem do armário” e, com o “guarda chuva” do Chega, ei-los a perderem a vergonha e a mostrarem o que sempre foram e sempre defenderam. E, agora, com as costas quentes pelos ventos que sopram em diversas latitudes, acham que nada nem ninguém os vai travar.
E foi nesse caminho, de mostrar que o regime democrático construído a partir do 25 de Abril está podre, que André Ventura apresentou a moção de censura. Não para o fazer cair o governo, mas, essencialmente, para mostrar que todos os partidos têm “telhados de vidro”, que as suspeitas que recaem sobre eles e alguns dos seus quadros mostram como é necessário acabar com este regime. E o debate no Parlamento foi apenas mais um contributo para isso. E, nessa perspectiva, André Ventura e o Chega alcançaram os seu verdadeiros objectivos com a apresentação da moção de censura.
Até para a semana! LG, 25/02/2025