Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 24/02/2026
Marco Abundância 24/02/2026
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
O que mudou em Portugal 40 anos após a adesão à União Europeia
A Pordata divulgou as conclusões do estudo elaborado no âmbito dos 40 anos de Portugal na União Europeia, que faz o retrato comparativo dos 27 Estados-membros em quatro grandes áreas, permitindo avaliar a evolução do país desde 1986 e a sua posição atual no contexto europeu.
Quarenta anos depois da adesão à então CEE – Comunidade Económica Europeia, os números do estudo revelam um país mais estável nas contas públicas e mais sustentável no plano ambiental nos últimos anos, mas ainda distante da média europeia em qualificação da população, produtividade e rendimentos.
De acordo com esse estudo, Portugal é hoje o segundo país mais envelhecido da União Europeia, com uma esperança média de vida de 83,7 anos, viu aumentar o número de pessoas a viver sozinhas e diminuir o peso das famílias com crianças.
No que respeita à imigração, Portugal destaca-se como o país onde a entrada de estrangeiros mais cresceu entre 2012 e 2023, muito acima da média da UE, mas ainda assim muito abaixo de outros países.
Com uma das populações ativas menos escolarizadas – quatro em cada dez pessoas em idade ativa não concluíram o ensino secundário, o valor mais elevado da União Europeia -, embora, entre os 25 e os 34 anos, 43,2% têm ensino superior, próximo da média europeia, sinal de convergência geracional.
Com um dos poderes de compra mais baixos, Portugal continua na 19.ª posição em PIB per capita, embora, entre 2020 e 2024, este tenha crescido 40% em termos nominais e 10% em termos reais, o sexto maior crescimento da União Europeia.
As finanças públicas mostram uma evolução mais favorável, tendo, em 2024, Portugal integrado o grupo de seis países com excedente orçamental. A dívida pública recuou para 94,9% do PIB, depois de mais de uma década acima dos 100%.
No custo de vida e rendimentos, persiste o desfasamento, com o rendimento médio bruto mensal bastante abaixo do registado noutros países e, desde 2020, o preço da habitação aumentou 24,1%, sendo o segundo maior agravamento da União Europeia.
No ambiente, Portugal é um dos países onde as energias renováveis têm maior peso na produção elétrica, representando mais de 90% da produção nacional em 2024, ficando entre os cinco Estados-membros com maior peso destas fontes. A dependência energética, embora se mantendo elevada, em 64,5%, diminuiu 5,7 pontos percentuais na última década. É ainda o terceiro com menos emissões de gases com efeito de estufa por habitante, mas a taxa de reciclagem de resíduos urbanos é de 30,7%, estando entre os dez países que menos reciclam.
Há 20 anos, escrevi no Jornal Terras do Cante, que, 20 anos depois da adesão, “Portugal ficou menos competitivo, mais atrasado, o Alentejo não parou de perder população, de envelhecer e de empobrecer, as empresas, com exceção dos grandes grupos económicos fortemente apoiados, atravessam cada vez mais dificuldades e entre as pessoas acentuou-se a diferença entre os mais ricos e os mais pobres.” Reconhecendo “que as responsabilidades da situação a que chegámos – o aumento da dependência alimentar, o aparelho produtivo nacional foi quase completamente destruído, as empresas estrangeiras dominam cada vez mais o nosso mercado e as empresas nacionais têm sido vendidas a estrangeiros, o fosso entre ricos e pobres no nosso país bem como a diferença entre o rendimento português e comunitário acentuaram-se – não se devem apenas à adesão” e que “Há outras responsabilidades e essas são, principalmente, dos governos e das políticas que temos tido.”
Como há 20 anos escrevi, “Não é a integração que se deve pôr em causa… é o modelo político-económico dominante que tendo conseguido aumentar significativamente a produção de riqueza não a distribui de forma justa, impedindo dessa maneira a tão almejada coesão”, porque “facilita a vida aos ricos e aos grandes grupos económicos, concentrando cada vez mais a riqueza produzida, e dificulta a coesão social, acentuando as assimetrias entre países, regiões, empresas e pessoas.”
Enquanto insistirem no mesmo modelo os resultados dificilmente deixarão de ser os mesmos. Não é por acaso que alguns falam muito em mudanças de regime político mas nada apontam ao modelo político-económico que nos domina.
Até para a semana! LG, 24/02/2026
