Crónica de opinião – Lopes Guerreiro – 13/01/2026
Marco Abundância 13/01/2026
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
A utilidade do voto
Aproxima-se mais um momento em que somos chamados a votar, desta vez para a Presidência da República, no próximo Domingo, dia 18.
Sempre que se realizam eleições fala-se sempre na utilidade do voto e há sempre quem apareça a pedir o voto útil em si, nos seus ou nos que apoia.
A primeira utilidade do voto é a da sua utilização, porque ao não votarmos não se estamos a dar utilidade a um direito que até há cinquenta anos não era de todos, havendo muitos que não o podiam exercer ou que, ao exercê-lo, o faziam de forma condicionada. E se não votarmos estamos a abster-nos de contribuir com o nosso voto para uma escolha política, seja ela qual for, e, talvez mais grave, estamos a desvalorizar o voto e o direito a ele, que foi tão difícil de conquistar para todos.
Nem sempre estamos seguros em quem votar, ou porque existem diversas opções com que simpatizamos ou porque tal não acontece com nenhuma das candidaturas. Neste caso, devemos avaliar mais cuidadosamente e escolhermos a que nos parece ter mais possibilidades de contribuir para o que pretendemos ou, se entendermos que nenhuma serve, podemos votar em branco ou nulo, manifestando dessa forma o nosso descontentamento com as diversas candidaturas, mas não deixando de mostrar o valor que atribuímos ao direito de votar, que é um dever cidadão.
A seguir é que se coloca a questão de se saber que maior utilidade podemos dar ao voto votando neste, naquele ou noutros. E isso depende de diversos factores, sendo talvez o mais importante e decisivo a avaliação que fazemos do contributo que o nosso voto pode dar para ajudar a alcançar a solução política que mais desejamos.
E isso não tem a ver exclusivamente com a vitória da candidatura que preferimos mas também com as posições relativas das diversas candidaturas. Ou seja, a nossa candidatura preferida pode não ter hipóteses de ganhar as eleições mas pode, com a ajuda do nosso voto, alcançar um votação que reforce a sua posição e a sua capacidade de resistir e ganhar força para poder ter influência na vida política e na sociedade. Porque este papel não se esgota nas eleições.
O primeiro esforço que todas as candidaturas deviam fazer era o de combater a abstenção e procurar que os que se se sentem tentados a abster-se votassem e votassem nelas. E só depois apelar ao voto dos votantes habituais nos concorrentes.
Nas últimas eleições para a Presidência da República a abstenção ultrapassou os 60%. Apenas quatro em cada 10 eleitores votou. Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito com 61% dos votos. Ou seja, foi eleito com os votos de menos de um quarto dos eleitores.
Estes números mostram que é nos possíveis abstencionistas que os candidatos devem apostar e tentar conquistar o seu voto e não esforçarem-se tanto por roubar votos às candidaturas concorrentes. Com isso, se forem bem sucedidos, não estão a conseguir enfraquecer os adversários mas sim eventuais aliados, politicamente mais próximos.
Nas últimas eleições presidenciais, a candidata apoiada pelo PS, Ana Gomes, obteve cerca de 13% e os candidatos apoiados pelo PCP, João Ferreira, e pelo Bloco de Esquerda, Marisa Martias, alcançaram, em conjunto, pouco mais de 8% dos votos.
Assim, se João Ferreira e Marisa Matias tivessem desistido e todos os que neles votaram tivessem votado em Ana Gomes, esta teria tido 21%, ou seja, cerca de um terço da votação alcançada por Marcelo Rebelo de Sousa.
Por outro lado, se Ana Gomes tivesse conseguido convencer um pouco mais de 20% dos que se abstiveram a votar na sua candidatura teria ganho as eleições, sem necessidade de qualquer voto das candidaturas mais próximas politicamente, e seria hoje a Presidente da República. E mesmo assim a abstenção ainda teria sido de 40%.
Estas eleições presidenciais são, de todas, as que têm mais candidatos. São as mais disputadas pela quantidade de candidatos mas o mesmo não se pode dizer da qualidade dos mesmos. Isso observa-se desde logo pela dificuldade revelada, por quase todos, de assegurarem os votos dos eleitores que votaram nos partidos que os apoiam, nas últimas Legislativas. Mas confirma-se no debate político que têm mantido, que resvalou para os golpes baixos, as acusações uns aos outros de quem é pior e tem menos competências para ser Presidente da República, mostrando alguns desconhecimento pelas competências do cargo e retomando o confronto partidário.
Assim, não é de estranhar a baixa popularidade de todos eles evidenciada pelas inúmeras sondagens e as dúvidas sobre quem poderá passar à segunda volta, dada por todos como garantida.
O que é de estranhar é que, mais do que apelar ao voto dos possíveis abstencionistas, alguns insistam no voto útil de possíveis eleitores de outros candidatos próximos politicamente, e até na desistência destes, quando não conseguem assegurar o pleno dos votantes nos partidos que os apoiam.
São estratégias que, mais do que mostrarem competência e confiança dos candidatos e dos que os apoiam, revelam falta de confiança em si mesmos e nos eleitores.
Pensem bem, ignorem eventuais pressões que sintam para vos condicionar e exerçam livremente o direito de voto, porque este é secreto.
Até para a semana!
LG, 13/01/2026
