Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 10/03/2026
Marco Abundância 10/03/2026
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
Adeus Marcelo! Avança Seguro.
Marcelo Rebelo de Sousa deixou ontem a Presidência da República, tendo sido substituído por António José Seguro, que, a confirmar-se o que parece ter-se transformado numa regra informal da nossa democracia, desempenhará as funções de mais alto magistrado da Nação durante os próximos dez anos.
Todos os Presidentes da República que temos tido têm tido magistraturas diferentes dos seus antecessores. Nalguns casos as diferenças foram bastante significativas. Foi o que se verificou entre Marcelo Rebelo de Sousa e Aníbal Cavaco Silva.
Dificilmente Marcelo Rebelo de Sousa poderia, nesse aspeto, ter sido mais disruptivo como agora se diz. Quase todas as suas características pessoais e a forma como desempenhou as funções marcaram bem a diferença entre ambos, apesar de procederem da mesma família político-partidária.
Marcelo Rebelo de Sousa foi sempre igual a si próprio: egocêntrico, previsível na imprevisibilidade, não resistindo a comentar fosse o que fosse, mostrando-se próximo das pessoas, popular, empático, correndo só mas não esquecendo a família, apelando à moderação mesmo quando não a praticou, interventivo mas não fazendo ondas que pudessem pôr em causa o estabelecido, repetindo alertas mas sem consequências em muitos casos. Talvez o que tenha marcado de forma mais indelével a sua magistratura tenha sido o dessacralizar da Presidência da República.
Agora, com António José Seguro, vamos ter outro Presidente da República diferente, não só do que substituiu mas também de todos os outros que o antecederam.
As diferenças que mais depressa se irão notar serão de estilo. Mais contido, menos comentador e menos vocal, deixando os silêncios falar, mais formal e institucional, procurando ser mais influente nas relações institucionais mas sem deixar de marcar as suas posições políticas publicamente, quando entender oportuno fazê-lo.
Apesar do papel do Presidente da República, num sistema semi-presidencial como é o nosso, ser relativamente limitado ao que se tornou comum chamar-se de magistratura da influência, Seguro colocou alguns desafios que não serão fáceis de alcançar.
Desde logo, o desafio de conseguir que os apoios às vítimas das recentes catástrofes recebam os apoios necessários prometidos em tempo oportuno, e que delas se retirem as lições adequadas a uma boa prevenção e a uma rápida e eficaz assistência.
O desafio do compromisso, entre os vários atores políticos e outros, de cooperação com vista à aprovação de políticas nas principais áreas que perdurem no tempo, será certamente um dos mais difíceis de alcançar, tendo em conta que essa não é a prática corrente, nomeadamente dos partidos políticos.
Conseguir que na Saúde todas as pessoas possam contar com uma boa e atempada prestação de serviços, sempre que deles necessitem, eliminando ou atenuando muitas das dificuldades existentes, será outro desafio difícil e urgente que os portugueses esperam que consiga ajudar a alcançar.
Os jovens aguardam que, para além das bonitas palavras e dos “rebuçados” que lhe atiram, sejam criadas as condições para poderem continuar a viver no seu País e a contribuírem para o seu desenvolvimento. Ambicionam ter condições para aceder a trabalho digno, não precário, com remuneração justa e horários que lhes permitam usufruir de tempos livres para si e suas famílias. Esperam ter acesso a habitação adequada, em condições suportáveis para poderem deixar mais cedo as casas dos pais e constituírem família. Desejam ter condições para poder estudar, independentemente das condições sócio-económicas das suas famílias ou do local onde residem.
Foram muitos os desafios colocados por António José Seguro enquanto candidato a Presidente da República. O tempo vai mostrar-nos se como Presidente da República vai conseguir contribuir para os alcançar.
Para alcançar a estabilidade que diz querer assegurar, não chega a estabilidade política e que as eleições se realizem apenas nos prazos previstos. A verdadeira estabilidade de que o País e os portugueses tanto precisam só será alcançada com o desenvolvimento sustentado e a satisfação das necessidades das pessoas.
Até para a semana!
LG, 10/03/2026
