Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 10/02/2026
Marco Abundância 10/02/2026
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
Portugueses votaram Seguro contra (a)Ventura
António José Seguro foi eleito Presidente da República. Depois de, na primeira volta, ter alcançado 31% e um pouco mais de um milhão e setecentos mil votos, atingiu agora 67% e quase três milhões e meio de votos. É o Presidente da República eleito com a segunda maior percentagem e o maior número de votos de sempre.
A votação obtida por André Ventura, o outro candidato que passou à segunda volta, mesmo tendo subido de 24% para 33% a sua votação, confirmou que dois em cada três eleitores o rejeitam, como apontavam os estudos de opinião.
Tendo conseguido passar à segunda volta graças à divisão dos eleitores da direita e centro direita por quatro candidatos, André Ventura não conseguiu juntar toda ou, pelo menos, a maioria da direita, como pretendia. Boa parte desta preferiu votar em António José Seguro em vez de o fazer em André Ventura.
Ou seja, dois terços dos portugueses que votaram disseram que não querem mudar de regime, como André Ventura defende, e querem continuar a viver em democracia, embora reclamando mudanças que melhorem este regime.
Sendo uma realidade que André Ventura e o partido que lidera, o Chega, têm vindo a aumentar a sua votação, eleição após eleição, não é menos verdade que a grande maioria dos portugueses não só não o apoia como o rejeita e às ideias e ao caminho que defende, de mudar de regime e de alterar a Constituição, por mais propostas e posições populistas que apresente, de oferecer tudo a todos conforme os seus desejos.
Os resultados das eleições presidenciais não são resultados dos partidos dos candidatos, embora, diga-se em abono da verdade, que essa confusão é mais fácil de estabelecer no caso do Chega, por André Ventura ser o seu chefe e ter tido o seu partido exclusivamente a apoiá-lo, enquanto António José Seguro apresentou a sua candidatura autonomamente, afirmando que o fazia como independente, só tendo tido o apoio do seu partido, o PS, já quando estava em plena campanha eleitoral.
O Chega bem pode reclamar a liderança da direita mas André Ventura ficou a quase 300 mil votos da votação alcançada pela AD nas últimas eleições legislativas.
Ou seja, André Ventura tendo alcançado a proeza de passar à segunda volta, deixando para trás o candidato oficial da AD e os outros candidatos da direita, e obtido um terço dos votos, não alcançou os seus principais objetivos de liderar a direita e mudar de regime, acabando com o regime democrático instaurado com o 25 de Abril.
António José Seguro foi o grande vencedor destas eleições. Apresentou-se como candidato acima das trincheiras partidárias, defendendo estabilidade democrática, previsibilidade institucional e capacidade de mediação – características tradicionalmente associadas ao papel do Presidente da República.
No confronto com o líder do Chega, que considerou ser um perigo para a democracia porque assenta a sua ação em mentiras e acusações infundadas aos seus adversários, pediu a confiança alargada aos eleitores para poder defender o regime democrático, que disse querer melhorar, mas não mudar de regime, como defende o seu adversário. E dois em cada três eleitores manifestaram-lhe essa confiança através do voto.
Como bem reconheceu, no seu discurso após a vitória eleitoral, a grande votação que alcançou deu-lhe uma enorme responsabilidade. Vamos ver se está à altura dela?
Tendo sido claramente identificado e isolado o adversário do regime democrático criado com o 25 de Abril, haverá por parte de alguns a tentação de unir boa parte dos que se opuseram a André Ventura, de forma a promover reformas, que alguns querem.
Este será certamente um dos maiores desafios que se vai colocar ao novo Presidente da República, se vai deixar levar pela “cantiga do bandido” e contribuir para o “centrão” dos interesses, ao arrepio de tudo o que garantiu e prometeu combater.
Vamos ver até onde vai na exigência da melhoria das respostas às necessidades do País e das pessoas, exigindo a rápida resposta às consequências das intempéries e à prevenção de cataclismos, bem como na saúde, que tanto preocupa e afeta as pessoas.
Os próximos tempos vão ser muito exigentes e clarificadores da capacidade de António José Seguro de ajudar a encontrar soluções para as maiores urgências e de gerar consensos para preparar melhor o nosso futuro coletivo.
Até para a semana! LG, 10/02/2026
