Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 03/02/2026
Marco Abundância 03/02/2026
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
“Mais vale prevenir que remediar” ou “deixar andar e fé em Deus”?
Incêndios, pandemias, intempéries, “apagão”, queda do elevador da Glória, só para falar nos últimos acontecimentos graves que provocaram perdas de vidas e imensos danos materiais, com impactos significativos na economia e nas nossas vidas.
A propósito de todos eles se falou muito na necessidade de prevenção, de forma a evitar que se repetissem, surgissem outros ou a minimizar os seus impactos mais negativos. Em todos eles se prometeram reparações rápidas e satisfatórias.
E também foi reconhecida e enaltecida a importância dos que, anonimamente, no terreno, são decisivos para atenuar os impactos negativos daqueles acontecimentos e remediar os seus danos. Chegaram mesmo a dizer que era nestas alturas que se via como eram decisivos para que a vida decorresse com normalidade e que, por isso, deviam ser vistos com outros olhos e mais valorizados.
Foram criados grupos de trabalho para avaliar o que falhou e apontar medidas para evitar que se repetissem ou que tivessem impactos negativos menos graves.
Entretanto o que temos verificado? Há ainda quem esteja a sofrer as consequências negativas desses acontecimentos, sem que o que devia ter sido reparado o tenha sido ainda. As medidas apontadas para evitar que acontecimentos dessa dimensão se repetissem ou que tivessem menores impactos negativos não foram aplicadas, foram-no parcialmente ou estão muito atrasadas.
E quando novo acontecimento tem lugar, como agora aconteceu, lá vêm as desculpas do costume: a dimensão foi maior do que se esperava, não é possível acudir a todos ao mesmo tempo, existem os meios necessários para acudir às necessidades, mas não foram solicitados ou não conseguem chegar onde fazem falta, e outras semelhantes.
Mais uma vez, em consequência da intempérie que assolou o País, milhares de pessoas ficaram sem eletricidade, sem comunicações e sem tudo o mais em consequência da falta desses serviços básicos. Nalguns casos durante vários dias. Não foi a primeira vez que uma parte significativa do País ficou completamente isolada. Todos os anos o País é assolado pelos incêndios, de consequências graves para o País e as pessoas afetadas, que têm queimado boa parte da floresta. Nos períodos em que o País está a arder, muito se fala da necessidade de planeamento e ordenamento do território que evite ou minimize os incêndios. Passadas umas semanas, parece que tudo passou e que já não é preciso fazer nada, e tudo volta a repetir-se no ano seguinte.
De cariz diferente mas com alguns aspetos semelhantes, veja-se o que aconteceu com a pandemia da Covid-19, o que se disse das aprendizagens que tínhamos feito para melhorar o sistema e a prevenção. O Serviço Nacional de Saúde não só não melhorou como viu reduzidas as suas capacidades de resposta, não só para fazer face a pandemias e outras situações semelhantes mas também para assegurar o seu normal funcionamento. Não só se continua a não apostar na medicina preventiva, que tantos problemas e custos podia evitar, como a curativa não está a dar a resposta necessária, com falhas graves nalgumas especialidades, nas urgências e na emergência médica.
O velho provérbio popular “mais vale prevenir que remediar” ensina-nos que “é mais prudente e vantajoso tomar medidas para evitar que um problema aconteça do que ter de lidar com as suas consequências negativas depois, sendo mais económico, mais fácil e menos doloroso prevenir do que consertar ou curar.” Parece que não percebemos isso e preferimos “deixar andar e fé em Deus”, confiando no divino e que ele nos proteja de todos os males.
Apesar da promoção de uma cultura de prevenção, com os mais diversos planos e medidas de contingência, formações, parece que, na prática, pouco evoluímos nesse sentido. É isso o que verificamos na luta contra os incêndios, como se registou, mais uma vez, este ano. É o que verificamos face a intempéries, como estamos agora mesmo a observar. Foi o que verificámos com o “apagão”, a queda do elevador da Glória e também com na prevenção da saúde e no combate às doenças.
Nada disto acontece por acaso, apenas por força da natureza ou maldição dos deuses. Muita da responsabilidade por esses acontecimentos terem lugar deve-se à ação do homem, ou, melhor dizendo, à ganância de alguns, porque há sempre quem ganhe com eles e com as suas consequências.
(Antes de terminar, apresento as minhas felicitações à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vidigueira, pelos seus 40 anos de existência, com os votos de que continue o seu bom trabalho em todas as dimensões da sua atividade.)
Até para a semana!
LG, 03/02/2026
