Crónica de Opinião – 06/01/2026
Marco Abundância 06/01/2026
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
O mundo está a ficar cada vez mais um lugar perigoso para se viver
Eu, que ingénuo me confesso e insisto em continuar, tinha apresentado, na minha última crónica do ano passado, a Paz como um dos desejos para este novo ano.
Não foi preciso esperar muito para para perceber quanto longínquo está esse desejo de poder ser concretizado. Bastaram apenas poucos dias para que Donald Trump, violando todas as normas internacionais, mandasse uma força de intervenção especial invadir a Venezuela e capturar Nicolás Maduro, o Presidente daquele país.
Na minha primeira crónica de há precisamente um ano, disse que “uma das principais incógnitas (para 2025) é o que a nova liderança dos Estados Unidos da América vai provocar de diferente nas suas relações com o resto do mundo e no mundo.”
Pouco mais de um mês depois, disse que “Donald Trump assume-se, para além de empresário, como imperador que quer fazer de novo a América grande. … a sua ambição fazem com que não olhe a meios para tentar alcançar os seus objectivos e apenas estes, porque os Estados Unidos não são mais do que um meio para os tentar alcançar”, pelo que seria desejável “que os líderes de outros países… se assumissem como estadistas e fossem capazes de defender os interesses dos seus países e de lidar com Donald Trump em pé de igualdade e não como súbditos de sua majestade.”
Infelizmente, não precisámos de muito tempo para vermos confirmado o que então dissemos e de estarmos a verificar que os líderes de muitos países não estão à altura dos desafios dos tempos, complexos e perigosos, que vivemos, ao colocarem-se de cócoras como súbditos de sua majestade o imperador Donald Trump.
Depois de tudo o que tem ameaçado – anexar o Canadá, comprar a Gronelândia, expulsar os palestinos e criar uma nova Riviera na arrasada Faixa de Gaza – e tem feito – abandonar de acordos e aliados, guerra das tarifas, apoio a todos crimes praticados por Israel –, está a promover “operações especiais” em diversos países e a mostrar de que lado está o poder da força.
Assistir a estas “operações especiais”, com que super potências invadem países soberanos para espoliar as suas riquezas, embrulhadas em declarações de apoio aos seus povos, não augura nada de bom. Se a isto acrescentarmos as opiniões de apoio ou de justificação de alguns líderes políticos, como se não percebessem o que de facto está em causa e pode vir a acontecer, os maus augúrios ainda mais se acentuam.
“Vamos governar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”, garantiu Donald Trump, porque “precisamos de acesso total ao petróleo e a outras coisas no país”, argumentando que governar a Venezuela é colocar a “América em primeiro lugar”, porque “Queremos rodear-nos de bons vizinhos, queremos rodear-nos de estabilidade”. E acrescentou ainda que “Cuba será um assunto sobre o qual acabaremos por falar” e que “O hemisfério [ocidental] é nosso”.
Se dúvidas subsistissem quanto às suas reais intenções, Donald Trump não perdeu tempo em dissipá-las. Mais claro não podia ser nas suas declarações. JD Vance, o vice-presidente dos Estados Unidos, já tinha avisado que a política externa americana “tem um novo xerife na cidade”, referindo-se a Donald Trump. E Raquel Varela escreveu que “Trump é uma ameaça à humanidade porque ele disse hoje que no mundo há uma única lei. A dele. Que é a do dinheiro, onde vale tudo.”
Mas Trump não é o xerife do mundo nem não manda nele, porque os povos têm o direito de decidir o seu próprio destino. Nenhum país tem o direito de invadir outro, bombardear o seu território ou capturar o seu presidente como se fosse dono do mundo. Isso não é ordem internacional, não é justiça e não é democracia. É imperialismo. Foi neste sentido que o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, classificou a “operação especial” dos Estados Unidos na Venezuela de “ato de guerra” e uma violação dos direitos internacional e federal.
Pode ser que seja por dentro, no interior dos Estados Unidos da América, que isso seja mostrado a Trump e, uma vez que ele não entende e que líderes de outros países se acobardam perante ele, sejam os norte-americanos e as suas instituições a dizer-lhe que os povos têm o direito de decidir o seu próprio destino. E estes, os povos atacados, saberão resistir, apesar de tudo, a estes desmandos. Assim esperamos.
Até para a semana!
LG, 06/01/2026
