Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 14/01/2025
Marco Abundância 14/01/2025
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
Calma! O que tem de ser tem muita força.
Calma, mas não a do calor, que essa já ultrapassou a meta estabelecida pelo Acordo de Paris, em 2015, como fronteira entre um planeta habitável ou não. 2024 foi o primeiro ano em que as temperaturas globais ultrapassaram aquele limite de 1,5°, e as temperaturas mais altas da história registaram-se no período dos últimos dez anos.
Os impactos das mudanças climáticas registam-se em todos os continentes. Incêndios florestais estão a devastar a Califórnia, tal como, em 2024, atingiram a Bolívia, o Brasil e a Venezuela, ondas de calor mataram milhares de pessoas no México e na Arábia Saudita e inundações torrenciais atingiram o Nepal, o Sudão e a Espanha.
Estes são apenas alguns exemplos mais expressivos dos impactos que as alterações climáticas estão a ter no Planeta e dos resultados do pouco que está a ser feito para os prevenir, apesar dos muitos compromissos e promessas assumidos pelos governos.
Mas da calma de que vos quero falar hoje é da tranquilidade e do bom senso que estão a escassear nos governantes e na opinião publicada. Veja-se o que se está a passar em resultado das eleições nos Estados Unidos da América. Com a vitória dos Republicanos e a eleição de Donald Trump, de repente parece que tudo o que era considerado disparate e impossível de acontecer passou a ser tratado como um novo normal e discutido o modo e o tempo da sua concretização.
Trump tem vindo a falar na compra da Gronelândia, na anexação do Canadá nos Estados da América e no controlo do Canal do Panamá como operações necessárias à defesa dos seus interesses e para que “Torne a América Grande Novamente”. E estas afirmações, consideradas por muitos como excentricidades que não seriam para levar a sério e que tinham como principal objectivo animar a campanha eleitoral, passaram, depois das eleições e face à sua repetição por Trump, a ser tratadas como propostas a serem avaliadas e negociadas.
Entrámos num tempo ainda mais perigoso do que já tínhamos, em que já não se consegue distinguir a realidade da fantasia, a verdade da mentira, em que tudo, por mais absurdo que seja, passou a ser tratado como normal e aceitável.
De repente, como se não houvesse antes, tudo passou a ser questionado e posto em causa, como se um vendaval tivesse atingido o Planeta de lés-a-lés e todos parassem para ver o que Trump, o seu provocador, quer e vai fazer. Como se não existissem outras potências, como se os estados passassem a depender exclusivamente dos Estados Unidos da América e os seus líderes obrigados a prestar vassalagem ao Grande Líder e Imperador do Universo.
Todos sabemos a importância que os Estados Unidos da América têm no Mundo, como grande potência nuclear, militar e económica que é e a influência que exerce sobre os outros Estados, numa visão imperialista que agora tenta reforçar.
Mas o Mundo é hoje bastante mais complexo do que nos habituámos a ver. Se os Estados Unidos da América são uma potência nuclear existem outras também poderosas. Se são uma potência militar também há outras com grande poderio a esse nível. Se são uma potência económica é questionável que ainda sejam a maior. Se exercem uma influência muito grande e determinante sobre muitos países, há outros que fazem o mesmo de forma menos exposta.
O que hoje torna o Mundo mais perigoso, é a degradação da democracia e a incapacidade que tem vindo a revelar de dar resposta aos grandes problemas que afectam o Mundo e as pessoas, é a falta de lideranças competentes, é o crescente domínio de outros poderes, como os grandes grupos económicos, sobre o poder político, como agora se viu nas eleições dos Estados Unidos da América e noutros países, e teve a expressão mais exuberante com a participação activa de Elon Musk na eleição de Trump e no papel que vai desempenhar na sua Administração.
É isso que nos deixa cada vez mais nas mãos de líderes incompetentes ou de sanidade questionável, cujo poder e decisões podem contribuir decisivamente para o agravamento do clima e das condições ambientais, das desigualdades, da instabilidade internacional, ou seja, do futuro do Mundo e da humanidade.
Perante isto, devemos ter calma, porque o que tem de ser tem muita força. Esperamos que o bom senso e a tranquilidade se imponham aos desvarios de alguns líderes.
Até para a semana! LG, 14/01/2025