Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 11/03/2025
Marco Abundância 11/03/2025
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
Agarrados ao poder e aos interesses pessoais e partidários
Assim que se colocou a hipótese da realização de eleições antecipadas, eis que logo começaram a surgir contestações à sua realização, com os argumentos de que a situação no mundo e no país exige estabilidade política, o que fez o primeiro-ministro foi “o que qualquer português faz” ou de que “ninguém quer eleições”.
E, quase todos, deixaram de considerar as eleições como uma saída para a crise política, criada e alimentada pelas suspeitas de Luís Montenegro ter continuado a receber avenças mesmo depois de exercer as funções de primeiro-ministro, passando a defenderem “tudo e mais um par de botas” para que elas não se realizassem.
Mas o que é que lhes deu de repente para terem este ataque de patriotismo e de quererem evitar a realização de eleições a todo o custo, ao ponto de um dos ministros com maior peso no governo vir a terreiro desafiar o PS a desistir da Comissão Parlamentar de Inquérito ao primeiro-ministro para, em troca, o governo retirar a moção de confiança, só lhe faltando acrescentar “a bem da Nação”?…
Os partidos políticos porque, fazendo cálculos aos resultados eleitorais que podem vir a alcançar, entendem que para pior já basta assim e é melhor ter um pássaro na mão do que dois a voar. O líder do PS chegou ao ponto de propor ao primeiro-ministro que retirasse a moção de confiança como única forma de evitar a realização de eleições…
Os membros do governo, deputados, autarcas, administradores de empresas e serviços públicos e demais pessoal dependente dos poderes políticos porque começaram a fazer contas à vida e se aperceberam que podiam ter os seus lugares em causa, em função dos resultados das eleições. Os governantes e seus assessores porque podem deixar de exercer essas funções se a AD não ganhar as eleições ou não forem de novo escolhidos. Os deputados que vão ser candidatos a autarquias e que não deverão ser candidatos à Assembleia da República. Os presidentes de câmara municipais que, não se podendo recandidatar, foram ou estão a contar ser colocados em administrações de empresas ou serviços públicos. E todos os que, essencialmente por confiança política, foram nomeados para os inúmeros lugares da Administração Pública e agora receiam perdê-los da mesma forma que os alcançaram.
Os empresários e líderes de associações e outras organizações com projectos ou acordos pendentes, porque temem pelo futuro dos mesmos e das respectivas consequências para as suas empresas e organizações.
Tudo isto é mau demais e só vem dar um novo fôlego ao Chega, que o estava a perder em resultado das inúmeras suspeitas graves, de diversa natureza, relativas a seus dirigentes. Assim, o partido que mais tem feito por isso logo aproveitou para dizer que esta era mais uma prova de que o regime democrático saído do 25 de Abril – a III República, como gosta de dizer -, está podre e deve ser substituído.
Luís Montenegro criou esta crise política mantendo uma situação de eventual incompatibilidade entre a sua vida empresarial e a de primeiro-ministro, que não só não quis ou não pôde travar, como nela envolveu o PSD e o Governo da AD. E não satisfeito com isso, fez afirmações que não se admitem a um primeiro-ministro, como a de que “não fez nem mais nem menos do que qualquer português”, o que revela bem que ainda não percebeu a gravidade da situação em que caiu ou que tenta fazer de todos nós parvos, fingindo que não compreendeu.
Um primeiro-ministro é um português como qualquer outro, mas com maiores responsabilidades, sujeito à Lei das Incompatibilidades (e impedimentos) dos titulares de cargos políticos e, também e por mais que lhe custe a aceitar, sujeito a um maior escrutínio dos outros políticos, da opinião publicada e da opinião pública.
Luís Montenegro não fez o que tinha de fazer e optou por juntar o útil de manter rendimentos obtidos através de avenças pagas à sua empresa ao agradável de exercer as funções de primeiro-ministro, que tanto ambicionava. Mas sabia o que tinha de fazer, porque logo que assumiu funções de presidente do PSD passou a sua quota na empresa para a sua mulher e, depois de exercer as funções de primeiro-ministro e do escrutínio público feito à sua situação, passou a quota da sua mulher para os seus filhos, bem como mudou a sede e os contactos da empresa.
Não venha agora vitimizar-se e dizer que não aceita que o país caia na lama quando foi ele que o enlameou. E muito menos recusar-se a prestar todos os esclarecimentos devidos ao cabal esclarecimento da sua situação de eventual incompatibilidade, como tem feito, devendo, por isso ser obrigado a prestá-los na Comissão Parlamentar de Inquérito e, eventualmente, ao Ministério Público.
Vamos ver se “ninguém quer eleições” e “se fica tudo na mesma”, como dizem, ou se os eleitores vão mostrar que não aceitam ser tratados como parvos e governados por chicos espertos e, aproveitando esta oportunidade, contribuem com o seu voto para mudar de governo e de políticas, porque também estas precisam de ser mudadas.
Até para a semana!
LG, 11/03/2025