Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 04/06/2024
Marco Abundância 04/06/2024
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
O PCP (ainda) incomoda muita gente e a guerra na Ucrânia sem fim à vista
Pode-se gostar ou não, pode-se concordar ou não com o PCP, mas pela resistência, pela coerência e pela persistência na luta pelos ideais, pelas políticas e pelos objectivos que defende não deixa ninguém indiferente.
Mesmo os que o acusam de continuar agarrado ao passado, a defender ideias e políticas ultrapassadas e de, para as defender, usar sempre a mesma cassete, não só não lhe são indiferentes as propostas do PCP como mostram até perturbá-los.
Independentemente da correcção e da razão que possa assistir às ideias que defende e às propostas que apresenta, um mérito não se pode negar ao PCP – o de incomodar, desassossegar e mostrar que nem todos pensam da mesma maneira, que há quem veja as questões de outra forma e apresente outros caminhos e propostas, diferentes dos que a opinião dominante tenta apresentar como únicos.
Veja-se o que se tem passado nesta campanha eleitoral para o Parlamento Europeu. Certamente que sem a participação do PCP alguns temas não teriam sido debatidos ou, pelo menos, o seu debate não teria tido a mesma intensidade e aprofundamento.
A corrida armamentista, a guerra e a paz, as migrações, o balanço entre os benefícios e os custos da integração europeia, os equilíbrios entre a construção europeia e as soberanias das nações, os défices de coesão e de democracia da União Europeia, o acentuar das desigualdades entre ricos e pobres e entre o capital e o trabalho, a insuficiente dignificação e valorização dos trabalhadores, a ausência de políticas ou políticas erradas que não preveniram o surgimento das crises climática e demográfica e problemas graves como os da saúde e da habitação não teriam sido objecto de tanto debate e de abordagens diferenciadas se não tivesse sido a intervenção do PCP.
Ainda ontem, João Oliveira, do PCP e cabeça de lista da CDU, num debate e ao contrário de quase todos os outros candidatos, dizia que estava na campanha eleitoral para discutir os problemas nacionais e que afectam os portugueses em resultado das políticas da União Europeia. Ou seja, estamos na União Europeia e as suas políticas interferem e determinam muito do que se passa no nosso país e nas nossas vidas.
Quer por serem contra a corrente dominante quer pela forma como são apresentadas e defendidas, algumas posições do PCP são caricaturadas, deturpadas e discutidas pelos seus adversários como se fossem diferentes das que efectivamente defende, como se pode comprovar, muitas vezes, por documentos escritos.
O PCP defende que devemos preparar-nos para a saída do Euro, voluntária ou forçada, para que, caso essa eventualidade aconteça, não sermos “apanhados com as calças na mão”. Em que medida tal proposta lesa a União Europeia ou nosso País? Parece ser uma proposta sensata e precaver o futuro, cada vez mais incerto.
As posições do PCP sobre a invasão da Ucrânia e as políticas russas de Putin, que desde o início condenou, a defesa de um cessar fogo e de conversações com vista à celebração de um acordo de Paz entre as partes envolvidas – Rússia e Ucrânia, mas também Estados Unidos da América, União Europeia e NATO, sob o alto patrocínio da ONU -, não autorizam a que concluam, como tantos fazem, que quando o PCP se manifesta contra a escalada armamentista dos senhores da guerra e diz defender a Paz está a defender Putin e as suas pulsões imperialistas.
Entretanto, os que criticam as posições do PCP não apresentam alternativas que não seja a de prosseguir e intensificar a guerra, sem fim à vista, como já reconhecem, com elevados custos de vidas, económicos e ambientais, que, a não ser travada a guerra, levarão à exaustão do povo ucraniano e à destruição de partes significativas do país.
Dir-me-ão, e com razão, que quem invadiu a Ucrânia foi a Rússia e que é esta que tem de ser derrotada, porque se tal não acontecer Putin não parará. Mas como é que se derrota a Rússia, que até aqui tem conseguido conquistar mais terreno, destruir mais infraestruturas essenciais e matado mais ucranianos, com custos em vidas e materiais que tem conseguido suportar, ao contrário do que diziam e apesar dos apoios dos países da NATO? A questão que se põe é esta: É possível a Ucrânia vencer a Rússia, sem o envolvimento de forças militares da NATO? E se isso acontecer que implicações terá no Mundo? Estamos dispostos a ir ou a enviar os nosso filhos e netos para a guerra para defender a integridade territorial da Ucrânia?
Até para a semana! LG, 04/06/2024