Crónica de Opinião – Lopes Guerreiro – 06/10/2026
Marco Abundância 06/10/2026
A crónica de opinião de Lopes Guerreiro.
Estabilidade política para quê?
Há partidos e políticos, principalmente quando estão no poder, que falam muito na necessidade de assegurar a estabilidade política. E para o conseguir costumam apelar à responsabilidade de partidos e políticos da oposição, no sentido de deixarem passar, com o seu voto favorável ou com a abstenção, medidas, políticas e leis, designadamente a do Orçamento do Estado.
Pouco ou nada falam do conteúdo dessas medidas, políticas ou leis, do impacto que terão no país e na vida das pessoas. O que lhes interessa é a estabilidade política, ou melhor a sua manutenção no poder, para continuarem a fazer o que querem.
E não é que, não raras vezes, conseguem que os que levam o tempo, na oposição, a criticar os que estão no poder, a sua política e as suas políticas e até a forma como exercem o poder, acabem por, em nome da estabilidade política e da responsabilidade, por deixar passar o que os que estão no poder querem?
Fazem-no usando argumentos como as pessoas querem que quem governe o faça até ao fim do mandato, quando devem então ser avaliados. Isto, naturalmente, na esperança de que a governação se degrade e enfraqueça e se criem condições para, em eleições, os poderem substituir.
Desta prática algumas ilações se podem tirar: o que lhes interessa é o poder pelo poder, a sua conquista e a sua manutenção, nem que para isso o país vá de mal a pior; os partidos que, na oposição, dão a mão aos que estão no governo fazem-no porque não acreditam ter condições para fazer melhor, e preferem que o governo faça pior, perdendo, os partidos que o apoiam, a confiança dos eleitores; mostram, assim, uns e outros, que o que mais lhes interessa não é servir o país e as pessoas, mas poderem alternar no poder, com pequenas nuances políticas e muita retórica e verborreia para fingirem que são muito diferentes uns dos outros.
E, o que é mais grave ainda, é que há Presidentes da República, como parece ser o caso do atual, que apoiam e incentivam esta prática, apoiando e incentivando entendimentos e acordos entre uns e outros que garantam a tal estabilidade política.
A experiência mostra que a verdadeira estabilidade política é assegurada com políticas e medidas que sirvam o país e as pessoas. E não com aritméticas que deixam passar políticas e leis que não não resolvem os problemas e os agravam ainda mais. Basta recordar que governos apoiados por maiorias políticas já caíram, enquanto governos minoritários se mantiveram por mais tempo.
A democracia não se reduz a eleições e muito menos à obrigatoriedade de cumprir mandatos, por menos que o poder cumpra o que prometeu e mais problemas que crie.
A democracia é alimentada por um conjunto de pilares institucionais, valores sociais e práticas cidadãs que garantem que o poder emane do povo e seja exercido em seu benefício. Não se trata apenas do ato de votar, mas de um ecossistema contínuo que exige manutenção diária.
Quando o poder não é exercido em benefício do povo, este, através de partidos, sindicatos e outras organizações e pelos mais diversos meios, tem o direito de se indignar e de exigir mudanças políticas e, se necessário for, também de governo, quando tal se impuser, independentemente do mandato ter chegado ao fim ou não.
E é isso também que o Presidente da República deve apoiar e incentivar, como já alguns fizeram, garantindo não só o funcionamento das instituições, mas também o cumprimento dos programas eleitorais e de governo e, principalmente, que o poder está a ser exercido em benefício do povo.
O apelo feito por ex-ministros do PSD e do PS, empresários e outras figuras, ou figurões, o anúncio da abstenção do PS no Orçamento de Estado, mesmo antes de conhecer a proposta, e o aplauso do Presidente da República a esse e a outros entendimentos entre o PS e o governo da AD, só contribui para reforçar a extrema-direita, presente em muitas políticas do governo, e o Chega. Porque – e nisso tem razão -, o estado em que o país se encontra é resultado da governação que temos tido do PS e do PSD, com ou sem CDS, em alternância ou juntos, como já aconteceu e parece que querem que volte a acontecer.
Até para a semana! 06/10/2026
